domingo, 26 de fevereiro de 2012

A revolução egípcia nas páginas dos livros

'The Struggle For Egypt' e 'Liberation Square' apresentam visões interessantes de um dos mais marcantes momentos da Primavera Árabe
A Primavera Árabe tem sido um dos conflitos mais intensamente cobertos dos últimos tempos, com hordas de jornalistas e seus notebooks e câmeras disputando espaços em uma série de países. Talvez nenhum único evento nesta temporada tão rica em notícias tenha captado tanta atenção como a revolução do Egito, e em particular o seu ponto culminante nas vastas multidões felizes que encheram a Praça Tahrir, no Cairo, no último inverno. As emoções da saída dramática de Hosni Mubarak tiveram um desfecho interminável, indeterminado e bem menos telegênico. Mas pelo menos a cobertura reveladora e incessante pode agora ser substituída por uma abordagem mais considerada. Dois livros se destacam em meio aos muito relatos da revolução egípcia, e não apenas dão detalhes curiosos sobre a revolução, mas a colocam dentro de um contexto mais amplo, alinhando-a com o passado do Egito, e sugerindo o que poder vir no futuro. Steven Cook, um especialista do Conselho de Relações Exteriores de Washington adota uma visão corretiva bastante útil. Seu livro, The Struggle for Egypt: From Nasser to Tahrir Square (“A Batalha pelo Egito: De Nasser à Praça Tahrir”), é uma oportuna, lúcida e bem-pesquisada obra de história política que remete às origens da dinastia pretoriana que comandou o Egito após o golpe militar de 1952. Cook mostra que embora o rancor contra Mubarak tenha crescido durante seu longo período no poder, sob vários aspectos, é possível afirmar que o estilo e o formato do Estado que ele herdou já carregavam as semente de sua própria destruição.
A estrutura do regime de Gamal Abdel Nasser podia ser à prova de golpes (já que esmagou a oposição), mas foi desastrosa em muitos outros aspectos, e talvez, sua maior falha tenha sido a mesma de seus sucessores Anwar Sadat e Hosni Mubarak. “Seus discursos sobre justiça social, mudanças econômicas e democracia nunca refletiram a realidade da vasta maioria da população egípcia”, escreve Cook. “Que papéis o Islã, o nacionalismo, e o liberalismo devem desempenhar na política e na sociedade do Egito? A incapacidade dos líderes egípcios em responder essas perguntas de maneira convincente, os forçou a preencher esses vazios com violência, o que acabou levando à revolução de 2011”. Cook não se arrisca a fazer previsões sobre o futuro do país, mas conclui com a afirmação de que um aluta pela identidade egípcia e por legitimidades que competem entre si continua, e deve ser longa e dolorosa. Ashraf Khalil, um repórter egípcio nascido em Chicago, que cobriu o Oriente Médio por mais de uma década, apresenta uma relato mais intimista e pessoal, mas também mais humorado e iluminado da revolução egípcia. Khalil não se aprofunda no passado do país, mas explica, com propriedade, o que foram os terríveis anos finais da era Mubarak. O maior crime do líder egípcio, diz ele em Liberation Square: Inside the Egyptian Revolution and the Rebirth of a Nation (“Praça da Liberação: por Dentro da Revolução Egípcia e do Renascimento de uma Nação”), foi tratar seu povo com desdém, gerando desespero e auto-repúdio. “Escondido atrás dos cassetetes e do gás lacrimogênio das forças policiais estava um regime cínico e falido intelectualmente… e por isso havia um claro tom de amargura e vergonha em meio à euforia e o senso de poder que tomou conta das ruas do Cairo quando Mubarak renunciou, em fevereiro. O sentimento era algo semelhante a ‘Não acredito que deixamos esses sujeitos mandarem na gente por décadas’”. Mas um ano mais tarde, todos se perguntam quem é que realmente manda no país, e o Estado Nasserista, embora ferido, ainda se mantém de pé. Fonte: The Economist

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