domingo, 26 de fevereiro de 2012

Brasileiros descobrem mais antiga pintura rupestre da América

Descoberta enfraquece modelo Clóvis, usado para explicar a ocupação humana na América
Pesquisadores brasileiros encontraram em Lagoa Santa, Minas Gerais, a mais antiga gravura rupestre das Américas. As datações de carbono 14 sugerem que a figura pré-histórica de baixo-relevo encontrada tem entre 9,5 mil e 10,5 mil anos. O desenho é de uma figura antropomórfica com a cabeça em forma de C, três dedos nas mãos e pênis ereto. Segundo o arqueólogo do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), Walter Neves, a representação é, provavelmente, uma parte de um painel maior sobre um culto de fertilidade. Para o pesquisador do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, Astolfo Araujo, a imagem representa um culto à virilidade, e o achado deve ter por volta de 12 mil anos. “Esse dado foi confirmado por outro método de datação: a luminescência”, explicou. De acordo com o arqueólogo e coautor do trabalho, Danilo Bernardo, a gravura foi descoberta em julho de 2009. Bernardo afirma que o grupo estava deixando o local de escavações quando viram o desenho: “Só conseguimos datar porque trabalhamos de forma metódica, recolhendo todos os carvões das fogueiras pré-históricas do sítio”, disse. Os pesquisadores ressaltam que a descoberta enfraquece o modelo Clóvis, que, durante anos, explica a ocupação humana na América. Segundo esse modelo, o homem teria entrado na América pelo Estreito de Bering, porém, com as recentes descobertas os arqueólogos concluem que não daria tempo para todo o continente ter sido colonizado no curto espaço de tempo, já que um esqueleto humano de cerca de 11 mil anos foi encontrado em 1998. Além destas descobertas, a presença de diferentes culturas líticas – construção de ferramentas com pedras – aliada a uma rápida adaptação em diferentes lugares, também fortalecem a teoria de que o homem chegou à América há mais tempo. No entanto, os defensores do modelo Clóvis questionam as datações das descobertas e afirmam que as culturas líticas seriam melhor justificadas por diferenças de matérias-primas disponíveis do que por uma tecnologia sofisticada presente no continente há mais de 10 mil anos. Os pesquisadores defendem também que a ocupação dos diferentes habitats da América do Sul é devido à natural habilidade humana de se adaptar. Para Araujo, a resistência dos norte-americanos ao modelo Clóvis não faz sentido: “Mostramos que a hipótese de uma ocupação mais antiga não se baseia só na datação de um esqueleto ou em evidências isoladas. Precisamos publicar mais em inglês e eles precisam começar a ler com mais atenção nossos trabalhos”, afirmou. Segundo Neves, o homem chegou à América há 14 mil anos pelo Estreito de Bering: “Não acho razoável propor que os primeiros habitantes vieram por embarcações da Austrália ou da África, bebendo água salgada”, disse o pesquisador. Fonte: Estadão

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