quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
Lições do maior cobrador de dívidas do mundo
Em suas memórias, Bill Rhodes conta experiências como a de cobrar devedores sob a ameaça de metralhadoras de guerrilheiros na Noruega.
O que a crise da dívida do Brasil, México e Argentina, nos anos 80, tem a dizer para os países da zona do euro como Portugal, Espanha, Itália e Grécia? Se a pergunta for feita a William (Bill) R. Rhodes, que durante 53 anos ocupou diversos cargos no Citibank à frente de reestruturação de dívidas, muito. Ele lançou recentemente o livro Banker to the World (Banqueiro do Mundo, em tradução livre, McGraw-Hill 2011) contando episódios de sua carreira e as lições tiradas de duros momentos de negociação, inclusive sobre o pagamento de dívidas do Brasil.
Nos anos 80, a negociação da dívida externa dos países da América Latina passava pelo FMI e por Bill Rhodes. Países de terceiro mundo, muitos deles estavam crescendo aceleradamente até que o aumento das taxas de juros nos Estados Unidos, a ocorrência de uma recessão mundial e desequilíbrios internos – como alta inflação – abateram em voo o desempenho de economias como a do Brasil, que havia pouco tinha vivido o “milagre econômico”.
Rhodes, pelo Citibank, representava também diversos bancos privados que tinham emprestado bilhões para sustentar o crescimento de países como o Brasil, Argentina e México. Ele foi o maior cobrador de dívida do mundo. Em suas memórias, ele conta a experiência de cobrar devedores sob a ameaça de metralhadoras de guerrilheiros na Noruega, investigar o sumiço de um ministro da Fazenda do México e até voar secretamente para se reunir com Delfim Neto, no Brasil. “Os brasileiros disseram, e eu concordei, que não deveria haver nenhuma notícia da nossa viagem. Se aparecesse na imprensa, eles negariam. Eles receavam que qualquer vazamento fosse interpretado como um insucesso nas negociações e que as linhas de crédito de comércio e empréstimos interbancários secassem”, recorda. A equipe do Citibank viajou em avião fretado para Brasília, e se reuniu em um discreto jantar com a equipe econômica do presidente João Batista Figueiredo: Delfim Netto, Ernane Gâlveas e Carlos Langoni. “O mundo estava perdendo a confiança no Brasil. Algumas empresas aéreas estavam cancelando voos porque não conseguiam dólares pelas passagens vendidas. A Shell passou a cobrar adiantado para vender petróleo”, lembra o financista, que acabou garantindo um acordo com o Brasil e a liberação de novos empréstimos pelo FMI.
Uma diferença do tempo de Rhodes para hoje em dia é que os empréstimos estavam muito mais concentrados em bancos, enquanto atualmente as dívidas de governos estão espalhadas na carteira de diversos investidores, de indivíduos a fundos de pensão. A banca, hoje, não tem mais rosto. Só que, para ele, a lição de como sair da crise ainda continua: dar condições para que os países afetados possam voltar a crescer e pagar as suas dívidas. Esse foi o espírito do Plano Brady, que reestruturou dívidas de países da América Latina, estendendo o prazo de pagamento. Apenas no final de 1993 o Brasil regularizava as suas dívidas dos anos 80 – então sob a liderança de Fernando Henrique Cardoso como Ministro da Fazenda. Do lado credor, representando 750 bancos, estava Bill Rhodes, que credita o sucesso do Plano Real à resolução da dívida pendente.
Rhodes se formou em história pela Universidade de Brown (EUA) e, para conhecer o mundo e aprender línguas, foi tripulante em navio de carga. Com amigos do navio aprendeu Espanhol, o que lhe foi fundamental no seu primeiro emprego com funcionário do Citibank. Rapidamente foi designado para trabalhar numa agência em Maracaibo, na Venezuela, país onde se casou e viu o dinheiro do petróleo encher as finanças públicas. Habilidoso, subiu na hierarquia do banco e conseguiu evitar a nacionalização do Citibank na Venezuela, quando o presidente Carlos André Perez adotou políticas nacionalistas. Mas a imagem que ele mais cultua em suas memórias é a de durão, desafiador de ministros da Fazenda e de líderes autoritários como Robert Mugabe. O que não chega a surpreender para quem representou a banca internacional em tantas negociações com países cronicamente endividados.
Em entrevistas na divulgação do seu livro, Rhodes queixa-se de que os europeus estão desprezando a experiência da ampla negociação de dívidas feitas na América Latina. Segundo ele, os líderes europeus acham que são cenários incomparáveis, quando o financista vê mais semelhanças do que diferenças. O resultado de não se chegar a um acordo logo – e na América Latina acordos eram anunciados até serem descumpridos logo depois – pode resultar numa década perdida na Europa. Para ele, é necessário ampla coordenação entre credores e devedores para abrir um caminho que promova reformas econômicas e restaure o crescimento – única forma sustentável de pagar dívidas. Como, duramente, a América Latina descobriu após uma década perdida.
Fonte: Opinião e Noticia/Renato Lima
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