sábado, 28 de janeiro de 2012
Emmerich troca monstros e maias por Shakespeare
Depois de usar e abusar dos efeitos especiais em Hollywood, diretor alemão filma em seu país drama histórico com sotaque britânico.
Diretor, produtor e roteirista Roland Emmerich
Ele derrubou monumentos e marcos turísticos conhecidos internacionalmente, em “Independence Day” e “O dia depois de amanhã”; ressuscitou com algum sucesso o monstro Godzilla, para mais tarde perpetrar “10.000 A.C.” — em que reviveu mamutes e outros bichos. Não satisfeito com a destruição provocada por alienígenas, pelo aquecimento global ou por um lagarto gigante, deu vez à tal previsão maia que vaticina o fim do mundo em 2012, no filme homônimo — em que sobrou demolição até para o Brasil. Porém, nem tudo está perdido para o diretor, produtor e roteirista Roland Emmerich: este ano, chega a vários países seu mais recente — e atípico — trabalho, “Anônimo”, previsto para estrear no Brasil em 9 de março.
Está certo que o alemão já visitou o drama de época em “O patriota”, ambientado em 1776, durante a revolução americana contra o domínio britânico. Aqui, no entanto, a história estava mais voltada para a ação — gênero no qual seu astro, Mel Gibson, se enquadrava na virada do milênio. Já em “Anônimo”, interessam as intrigas palacianas e a importância da arte, as tramas por trás do poder e o poder das palavras sobre o povo.
Ser ou não ser/Cena do filme “Anônimo”
Por onde o filme entrou em cartaz, muito se falou do mote introduzido por Derek Jacobi (que, infelizmente, só aparece como mestre de cerimônia): o ator plebeu William Shakespeare seria mesmo o gênio por trás de obras imortais como “Macbeth” e “Hamlet” ou teria servido apenas de fachada para o verdadeiro escritor, o nobre Edward De Vere, Conde de Oxford? Por outro lado, “Anônimo” destoa tanto do conjunto da obra de Emmerich que já houve crítico se perguntando, ironicamente, se teria sido ele mesmo seu diretor.
A especulação (quanto ao bardo, claro) não é nova — e certamente pode render ótimos papos com Barbara Heliodora e outros especialistas em Shakespeare das bandas de cá. Na tela, serve como pano de fundo para ótimas atuações de atores do Reino Unido, cercados por belos cenários e figurinos reconstituídos em Berlim (segundo consta, não havia data para fazer o trabalho na Inglaterra sem atrasar o cronograma de filmagens). E o cineasta e o roteirista John Orloff passaram anos burilando o texto que, afirmam em coro, tem muito mais a ver com política do que com ser ou não ser o autor de quase 40 peças e mais de 150 sonetos.
Cena do filme “Anônimo”
A história por trás da História transcende as tragédias escritas em tempos elizabetanos para virar grega. O tempo vem e vai da juventude à velhice da Rainha Elizabeth I, vivida por mãe e filha: senil quando encarnada por Vanessa Redgrave, fogosa na pele de Joely Richardson (atriz também de “O patriota”). O jovem Jamie Campbell Bower e o maduro Rhys Ifans se revezam no papel do Conde, que tem motivos pessoais para incentivar a rebelião de Essex contra a sucessão do trono pelo Rei James, da Escócia. É o seu teatro que encanta a soberana e inflama a plebe, enquanto o Shakespeare vivido por Rafe Spall vai de ator a testa de ferro, chantagista e coisa pior.
Mas não vamos estragar o prazer de quem for ver o filme, que tem tudo para ser uma boa surpresa numa temporada de títulos mornos (ainda que “oscarizáveis”), tais como “Os descendentes”, “Cavalo de guerra” e “O homem que mudou o jogo”. É só esquecer quem está por trás das palavras e das câmeras e se deliciar com a obra de Shakespeare, Orloff e, acredite se quiser, Roland Emmerich.
Fonte: Opinião e Notícia/Solange Noronha
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