quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Cidade de terra: luta pela moradia e ocupação urbana em Belo Horizonte

“É mesmo? Mas isso é só em Belo Horizonte?”, a frase é de um tenente do Batalhão de Polícia de Eventos, responsável, dentre outros, por realizar ações de despejo e reintegração de posse. A dúvida acomete o policial quando ele descobre que em Belo Horizonte, como em todo o país, existem mais terrenos vazios do que famílias precisando de casas. A frase poderia ser a menos esperada em uma reportagem sobre ocupações urbanas, mas é a que melhor resume o esforço do livro-reportagem “Cidadede Terra: Lutas de ocupações urbanas por moradia em Belo Horizonte”, em compreender a complexa trama política, social e, antes de tudo, humana, envolvendo a população sem-teto da capital mineira. Produzido pelo estudante Mateus Coutinho como Trabalho de Conclusão de Curso em Comunicação Social- Jornalismo na Universidade Federal de Minas Gerais, o livro traz o percurso de mais de três meses de pesquisa e apuração nas ocupações Dandara, Camilo Torres e Irmã Dorothy. Isso tudo sem abrir mão da sensibilidade e do próprio envolvimento (inevitável) do autor com a causa e as pessoas necessitadas ao longo do livro. Na obra estão presentes desde as discussões jurídicas em torno da posse e o direito à moradia, passando pelos complexos processos de reintegração de posse envolvendo proprietários especuladores – alguns investigados pelo Ministério Público por casos de desvio e lavagem de dinheiro – até as histórias de homens e mulheres sem-teto que lutam cotidianamente para sobreviver nas mais precárias condições. Apesar da proposta inicial de tratar das histórias das três ocupações urbanas, o livro acaba se focando na história da Comunidade Dandara e seus moradores, pois as outras duas ocupações estavam sob ameaça de pessoas ligadas ao tráfico que chegaram a tentar assassinar suas lideranças, impossibilitando a apuração local. Ainda assim, o livro-reportagem consegue trazer um esforço de compreensão e humanização das pessoas que vivem ou, de alguma forma, são afetadas pela Dandara e suas mil famílias. Nesta tarefa estão incluídos o preconceito de moradores dos bairros vizinhos, o mau atendimento dos serviços públicos – com destaque para uma senhora da Dandara que morreu de infarto após esperar o SAMU por horas – os apoiadores que nunca deixam a comunidade na mão e até aqueles que desistiram da luta mas ainda gostam de falar da experiência com a Dandara. No momento em que tanto se discute os impactos da Copa do Mundo e das Olimpíadas para a população marginalizada das metrópoles brasileiras, o livro “Cidade de Terra” traz à tona as insuficientes políticas habitacionais tanto a nível municipal quanto estadual e federal, antes mesmo de os megaeventos serem discutidos no país. Ao mesmo tempo, o autor tenta traduzir de forma humanizada e sincera os personagens com quem conviveu, seus dramas e suas contradições, sem deixar de pontuar os problemas e dificuldades de um movimento social que, diferente do policial do batalhão de choque, sabe muito bem quantos terrenos existem de sobra na 13˚ cidade mais desigual do mundo. Uma leitura que vale a pena para quem quer ter um outro olhar sobre as “cidades de terra” que surgem nas metrópoles brasileiras. Perspectiva que pode ajudar a entender um pouco mais os problemas urbanos do país, inclusive a recente reintegração de posse em São José dos Campos, sem as tipificações e estereótipos muito comuns, sobretudo nas rápidas notícias diárias, quando o assunto é invasão de terras. Por Mateus Coutinho para o Blog Interativo

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